
Este mês tem sido feito de artigos e vídeos sobre o que sentimos no luto, sobre gatilhos, culpa, evitamento, estabilização. Hoje quero mudar um pouco o registo, e partilhar convosco algo mais pessoal: o que este trabalho, ao longo do tempo, me tem ensinado — não como terapeuta, mas como pessoa.
Cada percurso é completamente diferente
A primeira coisa que aprendi, e que continuo a aprender todos os dias, é que não existem dois percursos de luto iguais. Duas pessoas podem ter perdido a mesma relação — um pai, uma mãe, um cônjuge — e viver isso de formas completamente distintas. Isto ensinou-me a nunca chegar a um acompanhamento com uma fórmula fixa. Cada percurso pede o seu próprio ritmo, as suas próprias pausas.
A dor mais silenciosa nem sempre é a mais visível
Aprendi também que a intensidade da dor não se mede pela quantidade de lágrimas. Há pessoas que atravessam o luto de forma muito contida, quase sem exteriorizar nada — e cuja dor interna é tão profunda como a de quem chora abertamente. Aprendi a não confundir contenção com ausência de sofrimento.
O progresso raramente é uma linha reta
Cada vez que acompanho alguém, vejo a mesma coisa: o progresso não avança em linha reta. Há semanas de avanços claros, seguidas de dias em que tudo parece voltar ao início. No começo, isto assustava as pessoas que acompanhava — e a mim também, quando comecei. Hoje sei que faz parte do processo, e que os recuos não apagam os avanços que já aconteceram.
O que mais me marca, sempre
O que mais me marca, em cada percurso que acompanho, é o momento em que a pessoa consegue, pela primeira vez, olhar para uma fotografia e sorrir antes de chorar. Não é o fim do trabalho — muitas vezes é só o início de uma nova fase. Mas é sempre o momento em que sinto, com mais clareza, porque é que faço isto.
Porque continuo a fazer este trabalho
Faço este trabalho porque já estive exatamente onde as pessoas que acompanho estão. Sei o que é evitar fotografias durante anos. Sei o que é sentir culpa por um dia bom. E sei, também, que é possível chegar a um lugar diferente — não porque alguém me disse isso, mas porque o vivi. É essa certeza, mais do que qualquer teoria, que sustenta este trabalho.
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