Recomeçar e Estabilizar
← Blog Reconhecimento

Há fotografias que ainda evitas ver? O que isso pode estar a dizer sobre ti

Publicado a

Mãos a segurar uma caixa de fotografias antigas, sem as abrir, simbolizando o evitamento no luto

Há uma caixa, uma pasta no telemóvel, um álbum numa prateleira — e sabes exatamente o que está lá dentro. Sabes também que, se abrires, vais desabar. Por isso não abres. Passas ao lado, todos os dias, como se aquele objeto nem existisse. Se isto te é familiar, este texto é para ti — não para te convencer a abrir a caixa hoje, mas para te ajudar a perceber o que este evitamento pode estar a dizer sobre o momento em que estás.

Evitar não é fraqueza, é proteção

A primeira coisa importante a dizer é esta: evitar uma fotografia, um lugar, uma conversa, não é sinal de fraqueza. É, na maioria das vezes, uma forma de proteção. O teu sistema emocional está a fazer aquilo que sabe fazer para te proteger de uma intensidade que, naquele momento, sente que não consegue suportar. Não há nada de errado nisso — é uma resposta humana, comum, e profundamente compreensível.

O problema não é o evitamento em si. O problema é quando ele começa a ocupar cada vez mais espaço na vida, sem que a pessoa se dê conta.

Como o evitamento se instala, pouco a pouco

Costuma começar em coisas pequeninas. Uma fotografia que se guarda numa gaveta em vez de ficar na mesa. Um caminho diferente para não passar por determinado lugar. Uma conversa em que se muda de assunto quando o nome de quem partiu surge. No início, parecem ajustes razoáveis, quase automáticos.

Mas, com o tempo, se ninguém parar para olhar para isto, o círculo pode ir-se fechando. Cada vez há mais fotografias evitadas, mais lugares riscados do mapa, mais conversas desviadas. E a vida, sem se perceber muito bem como, vai ficando mais pequena à volta desse evitamento.

O que este evitamento pode estar a dizer

Evitar uma fotografia não significa que não queres recordar essa pessoa. Muito pelo contrário — muitas vezes significa que a amas tanto, e que a perda dói tanto, que ainda não encontraste uma forma de olhar para essa memória sem seres arrastado(a) de volta para a dor do momento em que a perdeste.

É esta a distinção que importa: o problema não é a memória em si. É que, neste momento, essa memória ainda está demasiado ligada à intensidade da perda — e não ao amor que existiu antes disso.

Não precisas de forçar nada hoje

Este texto não é um convite para abrires a caixa esta noite. Forçar isso, sem preparação, sem espaço interno para lidar com o que pode surgir, raramente ajuda — pode até reforçar a ideia de que aquilo é demasiado perigoso para se tocar.

O convite é outro: simplesmente pensar, observar e anotar. Que fotografias evitas? Que lugares? Que conversas? Sem julgamento, sem pressa. Esse simples ato de reconhecer, ainda sem agir, já é um primeiro passo — e é, muitas vezes, o passo que se costuma saltar.