Porque é que, mesmo com o tempo a passar, a dor da perda continua a aparecer do nada?
Publicado a

Passaram-se meses. Talvez anos. E, ainda assim, há um dia em que a dor da perda, anos depois, volta com a mesma força do início — sem aviso e sem motivo aparente. Se isto te aconteceu, provavelmente sentiste-te surpreendido(a) e pensaste algo como: “achava que já estava melhor”. A verdade é que isto acontece com muito mais pessoas do que possas pensar, pois é algo que não se costuma admitir em voz alta! E não! Não é sinal de que algo está errado contigo.
O mito de que “o tempo cura tudo”
Todos crescemos a ouvir que o tempo cuida de tudo; que o tempo cura; que basta esperar. Mas quem já viveu uma perda profunda sabe que a experiência real é outra: o tempo pode tornar os dias mais suportáveis, sem que isso signifique que a dor desapareceu. Ela fica ali, guardada, à espera de um gatilho — e quando volta, volta com uma intensidade que te apanha completamente desprevenido(a).
Isto não quer dizer que não houve progresso. Quer dizer que a dor da perda não segue uma linha reta. Não é um contador que desce todos os dias um pouco mais até chegar a zero. É mais parecido com a maré: recua, mas volta; como o ciclo da maré baixa e da maré alta.
Os gatilhos emocionais do luto que trazem a dor de volta sem aviso
Às vezes o gatilho é óbvio — aniversário, o impulso de dizer: vou partilhar isto com… mas esse alguém já não está, o Natal, e muitos outros que podíamos aqui referir. Mas muitas vezes não é tão óbvio assim. Pode ser um cheiro específico numa loja. Uma música que toca no rádio do carro. Uma frase dita por um desconhecido, sem qualquer relação direta com a perda. O cérebro guarda associações que nem sempre conseguimos prever, e é exatamente por isso que a dor parece “vir do nada” — na verdade, quase sempre há um fio a ligá-la a alguma coisa, mesmo que esse fio seja invisível à primeira vista.
Reconhecer estes gatilhos, mesmo sem conseguir controlá-los, já é um primeiro movimento importante. Não para os evitar todos — isso seria impossível e, a prazo, cansativo — mas para deixar de os interpretar como um retrocesso.
Isto não significa que estás a piorar
Um dos pensamentos mais comuns quando a dor reaparece com força é: “não estou a conseguir lidar com isto, estou pior do que antes”. Mas sentir a dor voltar não é o mesmo que estar a piorar. É, muitas vezes, o sinal de que aquele momento — aquela memória, aquela data — continua a ter um peso emocional que ainda não encontrou espaço para ser trabalhado.
A diferença entre recordar e reviver está exatamente aqui: recordar é lembrar, até com um sorriso; reviver é ser transportado(a), outra vez, para a intensidade do momento da perda, como se estivesse a acontecer agora. É possível continuar a amar quem partiu sem que cada memória signifique voltar a esse lugar de dor.
Um primeiro passo: reconhecer antes de tentar resolver
Este texto não te vai dizer o que fazer a seguir. Antes de qualquer ferramenta ou estratégia, há um passo que temos tendência a saltar e até a ignorar: simplesmente reconhecer que o que sentes é real, é comum, e não precisa de ser escondido ou minimizado. Não precisas de “estar bem” o tempo todo para estares a percorrer o teu caminho de forma válida. Não precisas de fugir de ti, e fazer de conta que nada aconteceu.
Se hoje a dor voltou do nada, não significa que voltaste ao início. Significa apenas que ainda há ali algo a pedir espaço — e, por si só, isso já é uma informação importante sobre o que vem a seguir.
Leituras relacionadas: 5 sinais de que não estás apenas a recordar — estás a reviver a dor da perda
Para continuares a explorar

Antes de reconstruíres a tua vida, talvez precises de outra coisa primeiro
Ler mais
Porque continuamos a evitar certos lugares, datas e conversas, mesmo anos depois?
Ler mais
O tempo passa — mas será que isso basta para que a dor se transforme sozinha?
Ler mais
Há fotografias que ainda evitas ver? O que isso pode estar a dizer sobre ti
Ler mais
A morte do Lito Sousa e o luto que sentimos por quem não conhecíamos pessoalmente
Ler mais
A pergunta que talvez ainda não te tenhas feito: sentes que uma parte de ti ficou presa naquele momento?
Ler mais
Porque é que uma memória boa pode acabar sempre em tristeza?
Ler mais
5 sinais de que não estás apenas a recordar — estás a reviver a dor da perda
Ler mais